6 de janeiro de 2010

vida longa ao reveilong tropical














de algum modo essas datas de fim de ano me parecem um pouco como aqueles riscos grandes da régua. entre um e outro, há milhões de pequenos riscos e outros espaços não marcados e que continuam lá, existindo infinitamente enquanto for possível dividir o tempo.

como diz guimarães rosa e em voz alta bethânia "felicidade se encontra em horinhas de descuido" e para tanto, insistir num único dia que concentre todas as alegrias e desejos de um ano todo, de uma vida toda, não é lá uma boa tática.

mas pode ser q isso nos sirva como uma parada, um ponto de referência das coisas que continuam coexistindo na gente ou daquelas que não nos habitam mais - esse desejo mesmo de dar nome e direção àquilo que passa como um fluxo do inexplicável.
ou talvez seja uma vontade de afirmar que a gente persiste e que, pra além da gente, alguém vai comemorar o reveilong em 3010 assim como alguém deve ter acendido uma fogueira em 01/01/1001.
ou pode ser mesmo que esse dia só funcione bem pra vender vestido branco, sandália prateada e umas boas diárias de hotel, rezando pra ele não desabar na sua cabeça.

por isso é q ir parar no meio do mato, numa biboca da parafuseta com água limpa, amor e alguns amigos bons, me parece sempre a melhor opção. a gente finge que não sabe que dia é, tenta esquecer das horas e estar o mais longe possível dos fogos de artíficio.

assim a gente se descuida o suficiente pra encontrar um pouco de felicidade.

discutir minuciosamente o cocô de cada dia, ritual de cavar o buraco e enterrar a própria obra - tem dias que a gente garante: hj obrei muito bem.
ouvir o barulho da cachoeira durante aproximadamente 40hs ininterruptas. o som se incorpora ao som de si.
nadar pelado e sentir a água entrando por tudo quanto é buraco, balançando carne, pele, osso e a água do corpo ressoando num ritmo úmido.
pisar na lama, pisar na grama pontuda, fincar o pé num espinho e sentir os dedos escorregando numa chinela havaiana.
cantar as músicas que sabe de cor e inventar os pedaços que faltam. soltar gemidos, grunhidos e gritos inspirados no som dos bichos - "aquela paz que a gente tinha quando falava com os animais".
ver uma coral passar por perto e ficar morrendo de medo de dar um passo mesmo sabendo que o perigo sempre ronda.
olhar hipnotizadamente pra uma chama de fogo que crepita.
fazer comida quando dá vontade, quando não tem mais nada pra fazer ou quando precisa aproveitar o fogo que ainda tá aceso sem saber se é hora do almoço, da janta ou do café da manhã.
descobrir que as borboletas azuis gostam de comer cebola.
tomar um sol na mulera e voltar pra casa meio arreado, meio esquisito, meio fora do tempo e com imagens sons sensações impregnadas no tato na pele nos olhos.

2 comentários:

danislau disse...

seu blog tá bonito demais

parabéns

e desce a mão, por favor

bjo !

Luana Magrela disse...

Nossa aninha, descobri seu blog,
E adorei!

sua descrição das coisas é uma delícia de ler e imaginar!
: )

bjo.